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terça-feira, 19 de julho de 2011

Poema enferrujado

Eu sofro muito mais, oh, âncora de minha existência,
Sofro pois me transtornas, e me fazes parada da marrom folha;
E de Outono, calhou a caruma fresca, oleosa, inflamável,
És em todo rigidez para o meu corpo, que te jurei,
E calas na noite sobre a mesa, tampa a sombra silenciosa
No mastigar sonolento tua boca cheia.
Como sofro, Deus covarde, ele me estendeu como flor,
Caiou-me a casa e os entremeados da vida
Mas aos ventos sobram as lascas brancas a cair das paredes
E as arvores verdes se enferrujam no ritual em fim de Verão,
Meu perfume nada faz, o teu, desviou-se de intenções para mim,
É para outrem. Para outro corpo, um sopro em busto rosa...
Espero em meu corpo, curto em folego, no galego da seca folha,
Triste, em cardos, um gesto da mão esperançosa, que entre, nos sulcos do corpo,
E me traga de volta a vida, enfim, florida.

[Querido senhor] Paulo Valente

sábado, 29 de janeiro de 2011

(...)



O semeador, Van Gogh.


Se por vários momentos tudo parece bem, basta apenas um minuto pra que tudo mude, tudo desmorone.
Se tua felicidade irradia, contagia, te move, tua tristeza é assim, introspectiva, calada, te deixa parada.
Não é algo que valha reparar, não é algo que vão lhe perguntar.
Esses olhos silenciosos, vazios, cinzas, sem nada mais a acrescentar.
Essa dor que te aperta, te rasga, te faz gritar.
Grito esse que não existe a não ser em sua mente, voz silenciosa.
Todos ao seu redor, nada ao seu redor, barulho, silêncio, vazio.
Essa sua mente que prega peças, engana, brinca.
Felicidade geral, vida plena?
Se apenas consegue sentir quando não estás feliz?
Vazio que nunca se transforma em cheio.
Poço fundo, talvez não tenha um fim. Como subir se não acabou de descer?
Como sumir se lhe falta aparecer?

Mãos vazias, cheias de coisas pra fazer.
E essa dor, que não se cansa de aparecer?
E esse amor, que já desistiu de tentar te convencer?
Cada vez maior, cada vez menor.
Maior a fome, o buraco.
Menor a vontade de alimentar.

O sol amarelo, as folhas verdes, tudo em sua perfeição e sintonia.
Se não se sentes parte disso, então o que seria?
Se a vontade de andar de repente partisse e ficasse cada vez mais difícil?
Cenário lindo, perfeito, magnífico.
Mas me diga: quem entenderia?
Digo-lhe com certeza: eu não seria.

- [Minha querida] Bruna Figueiredo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Lenço úmido.




É, querida, o tempo passou,
Tudo mudou,
Mudaram aquele que sou.
Fazer o que? A mudança pulsa
Causando repulsa
Enquanto tento me segurar.

É, querida, estou tonto,
O temporal passou, marquei o ponto.
Não que seja de grande valia,
Mas esse não é o fim do conto
Que eu, como qualquer um, queria

Mas não destoarei em choro!
Esse estouro,
Que no fim de tudo passou em coro,
Diz-me pra andar, e andar, e andar
Sou forte, e corajoso, mas ao pensar em ti
Uma lagrima se soltou...
Limpei com o lenço que me dera, e deixei pra lá
Como a lembrança de algo
Que, por mais que sonhe, tardará
Em finalmente voltar a raiar.

Heitor Facini.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Exercício de interpretação

O que você entende deste poema? Vai aí um exercício de interpretação. Depois compararemos as respostas, e eu dou o verdadeiro (mas não o único)  intuito dele, ok? 

Onde estarias, criança, 

se o teu peso, hoje, fosse lembrança

e não quisesses ser pássaro

a pular do alto do prédio? 

Talvez fosses poeta, trovador 

sonhando em tempos alheios

e ruflando asas em meu coração. 

Não crescestes, criança, 

e fizestes bem. 

Que tempo haveria de passar

Até que o teu ser, adulto, 

não fosse mais lembrado? 

Não fostes pássaro, criança, 

mas o teu pulo foi poesia, 

única e bela,

a entornar tristeza ao chão. 

Tua poesia é maior do que a minha, 

é a poesia do eterno lembrar, 

e na amargura dos teus versos

sorri a lembrar de ti, criança, 

oriental criança 

que, em viver na desordem, 

preferiu o vôo raso até o alcatrão limpo

e sujo de humanidade. 

Hoje não te vejo lá, 

mas cá, criança, a rima dos teus olhos

ainda brilha. 


- Paulo Valente. 

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma lacuna poética.

Ontem vi um cachorro com olhos de gente.
O seu olhar era igual ao teu, eu prometo.
Considero tão triste que um bicho sem sonhos
Seja desenhado assim com olhos de medo.


Palloma Soares.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Canção para uma valsa lenta.

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...

Mestre Mário Quintana.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Poeta.


Como as árvores já andam carregadas de frutos,
os meus bolsos estão carregados de poemas.
E já pesam os meus bolsos como fardos
eles, que eram vazios e felizes,
sim, os meus bolsos eram felizes...
Podia tirar deles os minguados dinheiros
e recibos de contas atrasadas.
Agora eles quase me doem, carregam coisas intraduzíveis
pedaços de mim - leves esperanças
alguma aurora que já vem pelo caminho.
Os terríveis papéis que não puderam ficar em branco!

Como poderei carregar tudo isso
será que terei que levá-los para longe?
Ou eles terão sempre de voltar para mim?
Como as árvores, que já andam carregadas de frutos
os meus bolsos estão carregados de poemas.
Uma árvore, eu sei, pode se libertar do fruto
mas, como poderei eu me libertar do poema?


Antônio Girão Barroso
- Livro: Poesias Incompletas, página 83


domingo, 26 de abril de 2009

Sonhos.



Queria eu escrever sobre os delírios
De um sonhador,
Mas não sou capaz de sonhar
Nem de sentir o amor

Queria eu escrever sobre as canções
De um cancioneiro
Nem sei cantar
Sou um terço disso, não sou inteiro

Queria ao menos escrever o que eu quero.
Mas querer? Não posso.
Vontades não são validas
Minha vida eu destroço.

Não quero mais nada,
Nem ser eu mesmo.
Quero uma nova realidade
Em que eu possa apenas
Escrever a esmo.

Heitor Facini.

Tenho a honra de deixar algo do Tor aqui no meu espacinho.
Um dia vou conseguir entender como ele consegue criar tantas poesias com tanta facilidade.
E continuar usando um eu-lírico tão tristonho.
Espero que muitas outras possam sair das conversas no MSN direto pra cá.