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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Trecho do dia.


' E se você dormisse? E se você sonhasse? E, se, em seu sonho, você fosse ao Paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E, se, ao despertar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?'

Coleridge.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Personalidade

Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto. Walter Benjamin


Trancada no quarto uma garota chora. É noite e a luz está apagada. Sente um cheiro forte de terra molhada e de dor. Permanece sentada na cama com a cabeça entre as pernas. Incompreensão. Soluça. A chuva que lá fora cai aumenta a sua melancolia. O frio que chega traz consigo a solidão. As meias exageradamente coloridas que usa contrastam de maneira cruel com o seu estado de espírito. Tenta acalmar-se um pouco. Pára de soluçar. Agora tem um choro baixo, quase uma prece. As lágrimas ainda molham seu lençol claro. Incompreensão. E a chuva cai.

O motivo de tamanha tristeza? Ser como é. Sim, chora porque é diferente, assimétrica. Chora porque crê no amor, no homem. Já disseram diversas vezes que não vale a pena acreditar, mas ela ainda crê. Enquanto ser pessimista é mais simples, ela prefere ser profundamente otimista. Garota estranha. Filmes fazem-na chorar. Passa grande parte de seu tempo em companhia de livros velhos e novos. Ainda viaja sozinha com um pensamento, uma palavra, uma canção. Guarda fotos e bilhetes. Escreve cartas. Tem fé naquilo que não pode ver, mas que pode sentir. Tem fé no mundo, nas coisas. Não se interessa por marcas e status. Odeia parâmetros. Ouve música sem levar em conta tendências e preferências da mídia. Ouve o que gosta, o que a faz pensar. Ou não. Absurdo. É uma boba incurável, pois cultiva desnecessariamente a sinceridade, o perdão. Acha que respeito é a forma mais verdadeira de gostar de alguém. Cultua o sincretismo literário, sentimental, racial, emocional, intelectual. Distribui sorrisos ainda que sua alma transborde em indecisão e medo, pois não se compara um sorriso com nada. Admira. Uma boa conversa absorve-a por inteira. Reconhece a força de uma idéia. Luta. Garota estranha.

Chega a ficar horas olhando o céu como que buscando uma figura ímpar formada pelas estrelas. É magra demais. Branca demais. Sonhadora demais. Tem problemas com elogios, pois acha que não os merece. Prefere ouvir do que falar. É uma figura simplória, em extinção. Lê poemas, ouve poemas. Tem medo de perder os amigos, de perder sua essência. Usa óculos, tênis e perfume fraco. É diferente, assimétrica. Não se encaixa nos moldes impostos. Incompreensão.

Seu choro cessa. Dá um largo sorriso e entende que ser como é não é ruim, é uma dádiva. O que importa que muitos a critiquem? Importância há naqueles poucos que a amam. Esse era apenas um sinal de sua singularidade. Sim, ela é uma figura única. Agora, apenas sorri e e lembra de como gosta da chuva. Ela traz paz. Ouve a melodia acalentadora de uma banda islandesa no fundo de sua mente. Sorri. Ouve passos que se aproximam. Ouve batidas lentas na porta. Uma voz calma diz:

- Palloma, ainda está acordada? Já é muito tarde, durma.

Ela responde que logo dormirá. Garota estranha. Sonhadora demais.

~ Palloma Soares.