quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Exercício de interpretação

O que você entende deste poema? Vai aí um exercício de interpretação. Depois compararemos as respostas, e eu dou o verdadeiro (mas não o único)  intuito dele, ok? 

Onde estarias, criança, 

se o teu peso, hoje, fosse lembrança

e não quisesses ser pássaro

a pular do alto do prédio? 

Talvez fosses poeta, trovador 

sonhando em tempos alheios

e ruflando asas em meu coração. 

Não crescestes, criança, 

e fizestes bem. 

Que tempo haveria de passar

Até que o teu ser, adulto, 

não fosse mais lembrado? 

Não fostes pássaro, criança, 

mas o teu pulo foi poesia, 

única e bela,

a entornar tristeza ao chão. 

Tua poesia é maior do que a minha, 

é a poesia do eterno lembrar, 

e na amargura dos teus versos

sorri a lembrar de ti, criança, 

oriental criança 

que, em viver na desordem, 

preferiu o vôo raso até o alcatrão limpo

e sujo de humanidade. 

Hoje não te vejo lá, 

mas cá, criança, a rima dos teus olhos

ainda brilha. 


- Paulo Valente. 

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma lacuna poética.

Ontem vi um cachorro com olhos de gente.
O seu olhar era igual ao teu, eu prometo.
Considero tão triste que um bicho sem sonhos
Seja desenhado assim com olhos de medo.


Palloma Soares.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Canção para uma valsa lenta.

Minha vida não foi um romance ...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa ... de encanto ... de medo ...

Minha vida não foi um romance ...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance ...
Pobre vida ... passou sem enredo ...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance ...
Ai de mim ... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso ... de um gesto ... um olhar ...

Mestre Mário Quintana.

sábado, 13 de junho de 2009

Reminescências.




Ela lembrou que era um sábado de sol. Um verão estranho. Lembrou da vida que era sua e de todos os sentimentos que eram seus. Lembrou do sorriso do pai e dos conselhos da mãe. Era verão, mas fazia frio. Havia o desespero da impotência. Havia a força externa que a obrigava a lembrar de tudo que pudesse em poucos minutos.

A canção que um dia embalou seus sonhos de menina romântica tocava bem alto aos seus ouvidos. Lembrou-se do primeiro beijo, do primeiro amor, do primeiro filho. Infelizmente, não havia tempo para lembrar com mais apego, com mais carinho. Apenas lembrava. Como se existisse uma projeção e uma ampulheta repreendendo amargamente algumas doçuras e trazendo para aquele momento apenas o que era mais abissal dentro de si.

Ela quis pedir desculpas, pedir mais uma dança, pedir um conselho, mas tudo conspirava para o rápido balé desajeitado que agora precisava dançar. E fazia mais frio agora. As lembranças machucavam, mas estranhamente também funcionavam como conforto. Dava pra ouvir a risada dos filhos, o primeiro cantante Natal em família e as juras do amor falido do ex-marido. Podia sentir muitas coisas naquele instante com uma sensibilidade que contrastava com a angústia que permeava a situação.

O balé, claro, estava ficando mais lento. E a música teve o volume arrefecido. As imagens, no entanto, ficavam mais claras e rápidas. O frio aumentou. Ela lembrou que era um sábado de sol. Lembrou que não existiam mais forças. Lembrou que o mar a chamou para dançar. Era verão, mas fazia frio.

~ Palloma Soares.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Algumas declarações (nada) vãs.


Ela estava feliz. Um pouco cansada, talvez. Mas ainda conseguia trazer consigo a paz pra continuar vivendo. Ela Acompanhou a queda de todos os seus planos, de todos seus sonhos com maturidade inimaginável , espantosa, até. E chorou certa noite até não aguentar e adormecer límpida e leve como uma brisa. Isto não quis dizer que ela era uma mulher fraca, quis dizer que ela era humana.

Ah, tantas vezes, quando menina, havia sonhado com o príncipe encantado! A realidade fora cruel com seus devaneios. Aliás, eram poucos os devaneios seus que a realidade poupava. Ela, mesmo assim, aprendera a lidar com as desilusões e acabava deixando de ser alvo fácil para a tristeza. Isolou-se do mundo para curtir no anonimato a sua solidão, para guardar o luto do pedaço da sua vida mais cheio de esperanças vãs. Ela sabia que era pra sempre. Não teria mais volta.

E de quem era a culpa? Ah, esse detalhe não mais interessava. Não depois da forma brusca com que ele saiu de casa. Não depois das palavras que proferiu. Restavam somente as lembranças do momento em que o seu castelo ainda estava de pé, em que havia príncipe e princesa nesse conto de fadas. No fundo, ela só queria que ele não a esquecesse. É ruim passar pela vida de uma pessoa e nem ao menos ser lembrada por isto. Tudo bem. Não deu mais certo, mas existiram momentos felizes. O encanto se perdeu em alguma esquina vazia de um sábado à noite, ou o prazo de validade foi vencido pelo tempo.

É, ela não queria saber as respostas. Não era necessário magoar o seu peito. Não daquele jeito desastrado, desusado, e desumano. Agora, ela queria paz. A sua paz. Um tempo pra juntar os caquinhos do céu que foram quebrados tão abruptamente. Ela sabia como agir, com certeza sabia. E prometeu pra si mesma chorar sempre que fosse necessário. A casa vazia era quase um alívio. Agora ela ocupava sozinha o espaço perfeito pra sonhar.


Palloma Soares.

domingo, 17 de maio de 2009

Pode guardar as sobras de tudo.





- Não era pra ter sido assim, era?
- Você acha mesmo que eu queria uma coisa dessas?
- É. Você tem razão. Na verdade, tudo isso foi um erro.
- Exatamente. Um grande erro.

Silêncio.

- Foi um erro desde o começo?
- Claro que foi. Eu me arrependo amargamente.
- Nossa, eu fui tão péssimo marido assim?
- O pior que eu poderia ter tido, acredite.
- Você também não foi um terço do que eu imaginei que seria.
- Bom saber que a decepção foi recíproca.

Silêncio. Profundo silêncio.

- Eu posso ficar com a foto do porta-retrato dourado?
- Ué, por que isso agora?
- Ué, não posso levar uma recordação do meu primeiro casamento?
- E passa pela tua cabeça casar de novo?
- Por que não?
- Tem razão. Eu também penso em casar novamente.
- Ah, é? Legal.
- Também acho.
- Então, posso levar a foto?
- Pode. Não vai fazer falta mesmo.
- Obrigado.

Silêncio.

- Sabe que eu acabei de lembrar daquela música do Chico? Como se chama mesmo? Você ouve-a bastante. Fala do disco do Pixinguinha...
- Sei. Trocando em miúdos.
- Exato. Parece com essa noite, né?
- É. E é uma pena. É uma música muito triste. Linda, mas triste.

Silêncio.

- Nós não éramos sempre assim, éramos?
- Não, não. Nós tivemos ótimos momentos, lembra? Eu me lembro bem deles.
- Eu também lembro.
- Eu te devo desculpas. Nós não fomos um erro. Falei sem pensar.
- Eu preciso me desculpar também. Você não foi um péssimo marido, pelo contrário, eu que estraguei tudo com as minhas paranóias.
- Ah. não mesmo. Você foi a melhor esposa do mundo. Vai ter mais sorte com o próximo casamento, tenho certeza.

Silêncio.

- Eu não quero casar de novo.
- Bom, nem eu.

Silêncio.

- Você não precisa ir embora assim. A casa também é tua, e tá muito frio lá fora.
- Melhor, amanhã eu arrumo um lugar pra ficar, pode ser? Vou ser rápido, prometo.
- Exatamente. Amanhã.
- Pois é.

Silêncio.

- Sabe, eu não quero que você vá.

Silêncio.

- E eu não quero ir.
- Ótimo. Melhor pra nós dois.
- E pra foto, que não vai sair do lugar.
- Haha, verdade.

Silêncio.

- Estamos indo contra a música do Chico.
- Porque o nosso acerto é ficarmos juntos.


Palloma Soares.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Poeta.


Como as árvores já andam carregadas de frutos,
os meus bolsos estão carregados de poemas.
E já pesam os meus bolsos como fardos
eles, que eram vazios e felizes,
sim, os meus bolsos eram felizes...
Podia tirar deles os minguados dinheiros
e recibos de contas atrasadas.
Agora eles quase me doem, carregam coisas intraduzíveis
pedaços de mim - leves esperanças
alguma aurora que já vem pelo caminho.
Os terríveis papéis que não puderam ficar em branco!

Como poderei carregar tudo isso
será que terei que levá-los para longe?
Ou eles terão sempre de voltar para mim?
Como as árvores, que já andam carregadas de frutos
os meus bolsos estão carregados de poemas.
Uma árvore, eu sei, pode se libertar do fruto
mas, como poderei eu me libertar do poema?


Antônio Girão Barroso
- Livro: Poesias Incompletas, página 83


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pecados íntimos.




" Somos todos milagres. Sabe por quê? Porque como seres humanos vivemos nossa vida e o tempo todo sabemos, todos nós, que as coisas que amamos, as pessoas que amamos, a qualquer hora podem ser tomadas de nós. Vivemos sabendo disso e continuamos vivendo mesmo assim. "

Retirada do filme Pecados íntimos (Little Children) esta frase é somente uma amostra da complexidade que permeia o longa. Em uma cidade normal, pessoas normais. O que há de novo nisso? Bom, do lado aparente das coisas, nada, mas pouco a pouco, ao mostrar o lado íntimo das persoangens, um mar de máscaras caídas envolve o expectador. E o encanta.
Mulheres politicamente corretas têm fantasias mirabolantes com um pai, Brad, (Patrick Wilson) que todo dia leva o filho ao parque, mas com quem elas nunca sequer falaram. Um publicitário (Gregg Edelman) bem-sucedido cultiva sonhos eróticos com uma mulher virtual, enquanto sua esposa Sarah (Kate Winslet) dá mais atenção às caminhadas no final da tarde do que a filha Lucy (Sadie Goldstein). A monotonia corrosiva dos dias esconde a infelicidade de casa uma das pessoas que habita o bairro classe média americano, mantendo a imagem de perfeição que fica da porta pra fora. No entando, com a mudança de um pedófilo recém-liberto (Jackie Earle Haley) tudo se perturba pelo lugar. Há preocupação, perseguição e um tanto de exagero moralista por parte de um policial aposentado que pretende "abrir os olhos" dos cidadãos em relação ao perigo que os cerca. Uma aposta no parque numa manhã comum muda radicalmente os dias de Sarah e Brad, enchendo-os de uma jovialidade antes esquecidas pelas frustrações cotidianas. Observa-se com desinibida afeição as consequências das mudanças que ocorrem tão fácil. Tudo vai se redescobrindo nos personagens. Cada um mais esférico do que o outro. Há amores multifacetados, irreprimíveis. Cada um do seu jeito. Perturbador, inquietante e sutil. O enredo vai se conduzindo assustadoramente imprevisível e chocante até chegar a um fim imensamente reflexivo. Pecados íntimos é um filme que precisa ser visto no silêncio de um quarto escuro, sem pré-conceitos.


Direção: Todd Field.
Roteiro: Todd Field e Tom Perrota.
Ano: 2006

Trailer